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Da mesma forma, pelo livre acesso à informação, é cada vez maior a cobrança de pais e colegas acerca das mais recentes descobertas, dos mais novos diagnósticos e tratamentos, passando por “desinformado” aquele que não consegue identificar um diagnóstico facilmente reconhecido por outros colegas.
Assim, este artigo visa fornecer ao pediatra informações sobre alguns distúrbios de pele que não são facilmente reconhecidos ou que, mesmo identificados como reações adversas a medicamentos ou viroses, se apresentados com a devida “denominação” podem fornecer maior credibilidade ao pediatra ou, mais importante, maior segurança aos pais de crianças que, na maioria das vezes, estão angustiados com o problema apresentado por seus filhos.
1) PARAQUERATOSE GRANULAR
A Paraqueratose Granular (PG) consiste na falha em degradar os grânulos de querato-hialina existentes na epiderme, geralmente, favorecida pela sudorese, oclusão, obesidade, fricção e uso de cosméticos e desodorantes. Manifesta-se, clinicamente, por pápulas amarronadas ou negro-acinzentadas localizadas, preferencialmente, em locais de dobras (como a região inguinal, axilar, cervical ou a prega inframamária).
O início é abrupto, com surgimento das lesões que podem ser numerosas, assintomáticas, lembrando uma pequena “lentilha”. Em crianças, está frequentemente associada ao uso de cremes protetores à base de óxido de zinco e a simples orientação da limpeza cuidadosa, evitar o uso de camadas espessas desse tipo de produto e a aplicação de loções levemente esfoliantes como sabonetes à base de ácido salicílico ou loções com ácido salicílico em concentrações de 3 a 5% são suficientes para o controle da erupção.
2) SÍNDROME DE BABOON OU SDRIFE
A Síndrome de Baboon, mais recentemente denominada SDRIFE, que representa um acrônimo na língua inglesa para “Symmetrical Drug-related Intertriginous and Flexural Exanthema” foi, primeiramente, descrita, em 1984, por Andersen, como um tipo de dermatite de contato “sistêmica”, que aparecia de 2-5 dias após a exposição a determinados alérgenos, e recebeu essa denominação pela semelhança às áreas violáceas ou eritematosas observadas nas nádegas dos babuínos.
Inicialmente, foi relacionada a produtos contendo mercúrio e timerosal, mas, recentemente (Clin Exp Dermatol 2009, 24(3): 355), vários outros agentes têm sido implicados em sua gênese, como a penicilina e derivados, o níquel, a heparina, aditivos alimentares e mesmo a risperidona (Ped Dermatol 2009; 26(2):214).
Caracteriza-se pelo aparecimento súbito de eritema na região perineal (anterior e posterior) com sensação de ardência e eventual prurido, com duração de dias a semanas. A orientação é quanto à identificação e retirada do agente causal e a utilização de corticoides tópicos de baixa potência para minimizar os sintomas.
3) ERITEMA PIGMENTAR FIXO
Considerado uma reação local de hipersensibilidade a várias drogas, o Eritema Pigmentar Fixo ou Erupção Fixa Medicamentosa cursa com o aparecimento de uma placa de coloração vinhosa, arredondada ou ovalada em qualquer local da pele, com ardência local e eventual prurido. Às vezes, o processo inflamatório pode ser grande a ponto de originar lesões bolhosas, o que é denominado de Ertema Pigmentar Fixo Bolhoso. Após o aparecimento, as lesões vão tornando-se mais amarronadas, acinzentadas até desaparecerem. Entretanto, a cada nova exposição ao mesmo fármaco, a lesão reaparece no mesmo local (daí a denominação “fixo”) e podem surgir novas lesões se a medicação implicada não for removida. O tratamento baseia-se na identificação da medicação envolvida e sua suspensão, bem como a utilização de corticoides tópicos e filtro solar para que se evite a persistência de mancha hipercrômica residual.
4) DRESS
Anteriormente descrita como “Síndrome de Hipersensibilidade a Anticonvulsivantes”, o termo DRESS designa um acrônimo: Drug Rash with Eosinphilia and Systemic Symptoms e foi, primeiramente, relacionada à Carbamazepina e a outros anticonvulsivantes. Atualmente, é tida como um espectro das reações à droga e associada a vários outros medicamentos, entre eles, vários outros anticonvulsivantes, a nitrofurantoína, os antimoniais, a sulfasalazina, entre outros. Manifesta-se de uma a duas semanas após o início da medicação envolvida, com febre, eritrodermia, adenomegalia e sintomas sistêmicos que podem afetar qualquer órgão, com alteração da função hepática e renal, miocardite, encefalite, entre outros.
O tratamento baseia-se na suspensão imediata do medicamento em questão e substituição do mesmo por outra classe, se necessário; administração de corticoide sistêmico e, eventualmente, imunoglobulina; cuidados gerais; controle da hipertermia e atendimento em serviço de emergência, a fim de evitar as complicações e monitorar o comprometimento sistêmico.
5) EDEMA HEMORRÁGICO AGUDO DA INFÂNCIA
Considerado por muitos autores como uma variante benigna da Púrpura de Henoch Schoelein dos lactentes, ocorre, principalmente, abaixo dos dois anos. Apesar do aspecto das lesões assemelhar-se a uma meningococcemia ou púrpura fulminans, o estado geral da criança é bom e seu aparecimento já foi relacionado ao uso de medicamentos, vacinas, infecções virais e bacterianas.
As lesões são placas violáceas ou purpúricas, de diâmetro variando de 2 a 10 cm, em qualquer localização. O acometimento do pavilhão auricular é, particularmente, sugestivo de edema hemorrágico agudo da infância. As lesões são assintomáticas, pode haver febre associada e edema de mãos e pés é frequente.
O tratamento é sintomático, com analgésicos e antitérmicos, repouso relativo e observação a cada 3 a 5 dias, com desaparecimento lento das lesões (em torno de 15 dias) sem nenhuma sequela. O comprometimento sistêmico (como o que ocorre na Púrpura de Henoch Schoenlein) com dor abdominal, hematúria ou hipertesão é raro.
6) SÍNDROME DA VARICELA CONGÊNITA
A Síndrome da Varicela Congênita é entidade relativamente rara, mas muito característica e seu diagnóstico é importante, no sentido de se indicar acompanhamento multidisciplinar precoce, a fim de se evitar sequelas.
A história de varicela, no primeiro trimestre de gestação, é importante para o diagnóstico. As lesões podem estar pressentes ao nascimento como uma área cruenta ou com vesículas, seguindo um metâmero (principalmente, na região frontal ou parietal), podendo, também, acometer o Sistema Nervoso Central (convulsões, áreas de leucomalácia, retardo no DNPM, alterações sensitivas e motoras, bexiga neurogênica etc.), visto o vírus varicela zoster ter alta afinidade pelo tecido neural. O comprometimento ocular (conjuntivites por reativação do vírus, ectrópio, catarata e opacificações de córnea) também são comuns. O diagnóstico precoce e o acompanhamento multidisciplinar é importante, bem como a utilização de antivirais para controle das reativações do vírus.
7) CELULITE PERIANAL ESTREPTOCÓCICA
Também conhecida como celulite perianal, é causada pelo Streptococcus b-hemolítico do grupo A, desencadeando infecção localizada na região perianal, acompanhada de prurido e dor. Eritema de róseo a vermelho-vivo na região perianal e aspecto variado, desde descamação fina, exsudação, presença de pseudomembrana esbranquiçada ou até aspecto psoriasiforme. O diagnóstico é confirmado por swab e cultura e o tratamento é feito com penicilina ou eritromicina sistêmicos.
8) DERMATITE NA REGIÃO POSTERIOR DA COXA
Esse tipo de dermatose está se tornando mais frequente nos ambulatórios e consultórios de pediatria, embora sua etiologia ainda não esteja bem definida. Há alguns trabalhos que tentam correlacioná-la com um terreno atópico, sendo uma forma “localizada” de dermatite atópica, enquanto outros já comprovaram o papel de determinados sensibilizantes, como a tinta e a madeira utilizada para a manufatura de tampos de vasos sanitários na sua gênese, como uma forma de dermatite de contato.
Dentre os elementos possivelmente envolvidos, teríamos os materiais de limpeza utilizados nos banheiros, o próprio material dos tampos (plástico, PVC, madeira pintada), pigmentos utilizados em roupas, uniformes, tecidos, etc.
A clínica é muito característica, com aparecimento de lesões, inicialmente, mal delimitadas, pruriginosas, na região posterior das coxas, que progride para áreas maiores, eritematosas, descamativas e, por vezes, seguindo exatamente o desenho ovalado do contato com o vaso.
O tratamento mostra-se difícil, já que, muitas vezes não se consegue detectar qual o contactante. A orientação quanto à limpeza do assento, com álcool 70º ou detergente neutro, evitando-se produtos abrasivos, ácidos ou álcalis fortes, bem como a proteção local com cremes de barreira (óxido de zinco ou silicone) são mandatórios. A utilização de corticoides tópicos de média potência, uma vez ao dia, por períodos curtos de tempo, muitas vezes, é necessária, associada ao uso de anti-histamínicos sistêmicos para se evitar o prurido, o qual pode levar à infecção secundária. É comum a hipo ou hipercromia residual pós-inflamatória, a qual pode permanecer por vários meses após recrudescência do quadro inflamatório.
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